sábado, 4 de setembro de 2010

O Bar do Anísio – Berço de sucessos do Pessoal do Ceará.

“... o Anísio era uma pessoa muito amiga da gente. Era aquele cara que dava opinião nas músicas: ‘essa eu gosto, essa eu não gosto, essa aqui, meu filho, você canta que vai ser sucesso’. Beira Mar foi uma delas.” Ednardo

O extinto Bar do Anísio, localizado à beira mar de Fortaleza, é considerado o berço de muitos sucessos do chamado pessoal do Ceará, grupo de talentosos cearenses que ganhou projeção nacional. 

O local ficou famoso por ser o ponto de encontro dos jovens artistas cearenses na década de sessenta. O ambiente simples, o belo cenário natural de uma beira mar ainda descalça, a brisa da praia do Mucuripe e a simpatia do proprietário, eram o atrativo para noitadas culturais dos talentosos artistas da cidade. 

O bar foi descoberto por Roger, por volta do ano de 1965. O proprietário, Sr. Anísio, era um ascensorista que, em um encontro casual com o cantor cearense, o convidou a conhecer o seu barzinho, que acabara de abrir na beira mar.

No Anísio, Ednardo, Fagner, Belchior, Augusto Pontes, Rodger, Fausto Nilo, dentre outros, se reuniam para cantar e mostrar suas composições. Todos acalentavam o sonho do sucesso, da gravação do primeiro disco, só possível, naquela época, no sudeste do país. 

Sobre o bar, Augusto Pontes, uma espécie de guru dos futuros astros cearenses, declarou:
''Quase tudo no movimento cultural, com repercussões até hoje, nasceu lá, no Bar do Anísio, na Beira-Mar. Nem o Estoril tem essa memória que querem colocar, porque é posterior'' – [...]'O pessoal frequentador, apesar de identificado com a esquerda, era muito ligado nas artes. Às noites estávamos todos lá: Paulo Limaverde, Cláudio Pereira, Flávio Torres, Rodger, Ednardo, o Fagner era rapazola, menor de idade, e chegava numa rural Willys, mas ia embora cedo porque não podia varar a madrugada que o Juizado não permitiria. Ele não era discriminado, apenas não tinha a nossa idade. O que não surgiu nas casas da Teti, do Rodger, do Evangelista, é porque foi produzido no Anísio, de onde descíamos para demonstrar na praia o fruto de nossa criatividade. '' 

No bar, Belchior ouviu, várias vezes, uma frase de efeito que Augusto Pontes gostava de repetir: “Eu sou apenas um rapaz latino americano sem parentes militares, sem parentes no poder.Apenas eu, a pé, só eu, a pessoa eu”. 

O mote para a famosa composição do cearense estava dado. Era tempo de ditadura e a expressão irônica de Augusto sobre o poder dos militares, por segurança, foi adaptada por Bechior para: "Eu sou apenas um rapaz latino americano sem parentes importantes". 

Em outro desses encontros boêmios no Anísio, o cantor Ednardo lembra que estava em companhia do seu amigo Augusto Pontes, quando surgiu o argumento para a criação da música “Carneiro”. O depoimento é do próprio Ednardo, reproduzido no ótimo livro “No tom da canção cearense – Do rádio e TV, dos lares e bares na era dos festivais (1963 – 1979, do historiador Wagner Castro.

“Muitas músicas minhas e do Augusto Pontes, por exemplo, Carneiro, veio de conversas de bares; daquela época dos anos de chumbo da ditadura pesada. Aquela coisa todinha e a gente já pensando em sair daqui de Fortaleza e ir para o Rio de Janeiro, aí ei falei: eu estou doido de vontade de ir para o Rio de Janeiro, Augusto. Aí o Augusto falou assim: “eu também, mas não tenho dinheiro”; aí eu falei: pô, joga no bicho porque se você ganhar quem sabe...Então vamos jogar Carneiro.
A gente começou a juntar essas coisas todas: “Então, amanhã se der carneiro, vou me embora daqui pro Rio de Janeiro” (...) As coisa vem de lá, eu mesmo vou buscar, e vou voltar em vídeotapes e revistas supercoloridas; aí o Augusto disse: pra as meninas meio distraídas repetir a minha voz; aí eu disse: Augusto; que Deus salve todos nós” 

O cantor, no mesmo livro, afirmou que outras músicas suas foram criadas no famoso bar, a exemplo de Alazão e a poética “Beira Mar”.

“... Vida, vento, vela leva-me daqui.”

O Bar do Anísio, como tantos outros recantos da boemia cearense, não resistiu ao tempo e à especulação imobiliária: foi demolido para dar lugar a mais um dos grandes prédios que hoje infestam a beira mar de Fortaleza. Com o fim do famoso bar, se prenunciava também o fim dos bons tempos de boêmia, dos barzinhos e românticas rodas de violão na orla, agora transformada em um imenso paredão de suntuosos edifícios e hotéis.

“... É a vida, é a vida... Simplesmente, e nada mais...




Fontes:


http://www.raimundofagner.com.br/festival_aqui1968.htm


http://www.fa7.edu.br/recursos/imagens/File/jornalismo/materiaprima/2008.2.pdf


Castro, Wagner; “No tom da canção cearense – Do rádio e TV,dos lares e bares na era dos festivais (1963 – 1979),Edições UFC, 2008, 292 páginas

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Um comentário:

  1. excelente texto sobre esse bar... como eu queria ter vivido nessa epoca de ouro...

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